segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Roma no auge


Ruas repletas de pessoas, a maioria suja e malvestida. Casas minúsculas amontoam-se pelas ladeiras. Crianças e mendigos esmolam por toda parte. Muitos pobres dormem ao relento, em frente a comércios, mercados e fontes. Nos muros, propagandas políticas e declarações de amor. A sujeira contrasta com modernos e belíssimos prédios de mármore, endereço de instituições públicas. Nas regiões mais nobres da cidade, construções majestosas e imponentes abrigam as famílias ricas e seus escravos. Dentro dos palacetes, não raro as festas, com fartura de comida e bebida, evoluem para uma orgia.

São Paulo, Nova Délhi, Cidade do México? Nada disso. Falamos de Roma, por volta do século 2, a capital do império mais importante e poderoso que o mundo já conheceu. Em seu ápice, ela era quase idêntica às metrópoles atuais (mas sem a poluição no ar, claro). Aliás, Roma era ainda mais apinhada que os exemplos anteriores: no ano 200 alcançou 1 milhão de habitantes e sua densidade demográfica atingiu 66 mil pessoas por km2 (hoje, a cidade mais apertada do mundo é Mumbai, na Índia, com 29650 pessoas por km2).



Mesmo superpovoada e tumultuada, Roma nunca sofreu de baixa auto-estima. Prova disso era o costume de começar as proclamações oficiais com a expressão latina Urbi et Orbi, ou seja, “à cidade e ao mundo”. Era como se aquele formigueiro humano, sozinho, tivesse tanto peso quanto todo o resto do planeta junto – o que não estava assim tão longe da verdade. A cidade parecia uma miniatura do mundo: a primeira megalópole da História tinha gente de todas as raças e línguas, além de ser rica e exuberante. E um bocado bagunçada e perigosa.

Expansão inédita

Mas calma lá. Roma nem sempre foi um gigante urbano. Tudo parece ter começado de forma modesta lá pelo século 8 a.C., quando uma ou mais aldeias foram fundadas por tribos latinas (povo indo-europeu que falava línguas ancestrais do latim) nas colinas perto do rio Tibre. O vilarejo que surgiu aí tornou-se agrícola e aparentemente logo começou a manter boas relações comerciais com seus vizinhos. “Já no século 6 a.C. há sinais de contato com os gregos e com os etruscos [povo que dominava o centro-norte da Itália]”, diz Isabelle Pafford, professora de estudos clássicos da Universidade da Califórnia em Berkeley, Estados Unidos. Nobres etruscos teriam fundado uma dinastia, mas foram expulsos. Por volta de 500 a.C., nascia a República Romana.

Aproveitando-se da falta de um poder hegemônico próximo e das eternas brigas que dividiam as cidades-estado italianas, a república se organizou militarmente. Virou, nos séculos seguintes, senhora da Itália inteira, incorporando cidades e cidadãos. Primeiro foram a Espanha e a Sicília. Depois, a bacia do Mediterrâneo toda. No século 1 a.C., o general Júlio César obteve a conquista da Gália, atual França (veja a expansão do império na pág. 32). A essa altura, não havia mais nada de republicano em Roma. Otaviano, sobrinho-neto de César, tornou-se o primeiro imperador romano com o nome de Augusto. Até 68, o poder ficou com sua família, que ampliou os domínios, mas se mostrou corrupta, violenta e autoritária. Depois da morte de Nero, os imperadores passaram a ser pessoas escolhidas por mérito, e não por parentesco.

Coincidência ou não, a estratégia deu certo. As disputas internas enfraqueceram e, sob o comando de Trajano, ex-general que reinou de 98 a 117 (e o homem que está na capa da revista), Roma alcançou o auge de seu poderio militar e econômico. Ele liberou presos políticos, tratou com deferência o Senado, anexou a Dácia (atual Romênia e partes de outros países do Leste Europeu) e chegou, com seus exércitos, até Susa (no Irã de hoje). Qual o segredo de Roma? “O êxito do império por tanto tempo deve-se a seu caráter assimilador”, afirma o historiador Pedro Paulo Funari, professor da Universidade Estadual de Campinas e autor de A Vida Quotidiana na Roma Antiga. “Mesmo os povos vencidos acabavam incluídos como aliados ou romanos. Assim, as pessoas – ou as elites, ao menos – participavam do império. Além disso, a saúde financeira dele dependia do comércio, que era favorecido pela criação de mercados conectados por seu domínio.”

Do berço ao túmulo

Mesmo tão cosmopolita, Roma enfrentava problemas inerentes a sua época. Nascer no império, mesmo em seu auge, não era tarefa fácil. Por volta do século 2, a taxa de mortalidade infantil era de 400 para cada 1000 bebês (hoje, a pior taxa do mundo é a do país africano Níger, com 150 mortes para cada grupo de 1000). Num lugar onde as mulheres eram encaradas como propriedade de seus pais ou esposos, a que conseguisse dar à luz três filhos vivos ganhava independência legal. O índice de abandono das crianças recém-nascidas também era altíssimo: ultrapassava os 20% entre os séculos 1 e 3. Os motivos para abandonar um filho variavam de algum defeito físico ao simples fato de ele ser do sexo feminino, já que os filhos homens eram mais valorizados por manterem a linhagem da família. “É preciso separar o que é bom do que não pode servir para nada”, escreveu o filósofo Sêneca, no século 1. As crianças chegavam a ser enjeitadas até por razões políticas: conta-se (embora não haja comprovação) que, quando o imperador Nero matou sua própria mãe, Agripina, alguém abandonou um bebê com um cartaz: “Não te crio com medo de que mates tua mãe”.

Passado esse primeiro e duro desafio, a criança livre de nascimento e de boa família tinha sua educação entregue a um par de escravos. O disciplinador pedagogo, geralmente um escravo idoso e severo, não hesitava em usar o chicote. Uma escrava de origem grega (para ensinar a língua cutural desde o berço), a maternal nutriz, amamentava o bebê. Os escravos ensinavam meninos e meninas a ler e os educavam até a puberdade, quando só os garotos continuavam seus estudos com literatura clássica, mitologia e retórica: o ideal da educação não era aprender uma profissão, mas ser capaz de impressionar em debates públicos ou disputas judiciais.

Entre os romanos não existia maioridade aos 18 anos – o rapaz só era considerado emancipado se seu pai morresse. A rigor, todos os bens de um romano com genitor vivo podiam ser administrados por seu pai, segundo a lei, mesmo que ele se casasse. O casamento, por sua vez, não tinha nada de romântico: costumava ser um acordo entre famílias. Os rapazes uniam-se por volta dos 20 anos e as meninas, aos 14, embora não fosse incomum elas se casarem aos 12. Os homens tinham certa preferência por noivas virgens. Se isso ocorresse, na noite de núpcias, ele se limitava a fazer sexo anal com ela, para não apavorá-la.

Só os libertinos eram dados a luxúrias como fazer amor em pleno dia (o costume era esperar a noite cair) ou com a mulher de seios de fora (elas quase nunca se despiam completamente). Mesmo porque fazer sexo só pelo prazer não era coisa que os homens faziam com suas esposas – o objetivo da relação sexual no casamento era procriar. Livrar-se do cônjuge, por outro lado, era simples: bastava um dos dois querer. Havia maridos que nem sabiam que estavam divorciados: suas esposas simplesmente voltavam para a casa dos pais e não avisavam. Assim como a taxa de separações, o índice de amantes era elevadíssimo.

A expectativa de vida durante o Império Romano era muito baixa: girava em torno dos 30 anos. As péssimas condições de higiene contribuíam para a transmissão de doenças, e mortes por enfermidades ou ferimentos hoje considerados simples eram um bocado comuns. A medicina era tão precária que, nos primeiros anos do império, os chefes de família acreditavam deter todo o conhecimento necessário para curar seus parentes usando ervas medicinais. E, diferentemente dos gregos, que valorizavam os médicos, para os romanos a profissão era considerada inferior – e relegada a escravos, libertos e estrangeiros.

Bacanais dos bacanas

Como várias das metrópoles atuais, a capital do Império Romano era cheia de contrastes. Os aristocratas viviam em versões luxuosas da domus, a tradicional casa da nobreza romana, que possuía água corrente e piscinas aquecidas. Os vários cômodos da residência, como salas de jantar e escritórios, ficavam em torno de um pátio central, o atrium. Era nos escritórios que o rico romano antenado estudava os filósofos da moda, como Epicteto ou Epicuro. Um hábito difundido entre os aristocratas era o de promover enormes festas em suas casas – uma forma de medir o prestígio de um nobre. Nelas, comia-se e bebia-se muito: o costume era servir cerca de sete pratos, que incluíam iguarias exóticas como língua de passarinho. Os banquetes costumavam ter motivos religiosos. Para os romanos – cuja religião era uma mistura de mitos gregos, estruscos e latinos, além de crenças que assimilavam dos povos conquistados –, era normal essas festas terminarem em orgias, já que deuses como Baco, do vinho, simbolizavam desregramento.

Do lado de fora das mansões, o sossego era quebrado por bandos de jovens conhecidos como collegia juvenum. Filhos de famílias ricas, adoravam uma arruaça e, para se divertir, invadiam e quebravam lojas, montavam violentas torcidas organizadas e até realizavam estupros coletivos de prostitutas. “Volta do teu jantar o mais cedo possível, pois um grupo muito excitado de jovens das melhores famílias saqueia a cidade”, diz o personagem de um texto da época.

Por outro lado, a grande massa de pobres da cidade – desempregados, pequenos comerciantes e imigrantes – vivia em apertadas insulae (“ilhas” em latim), prédios de apartamentos com até nove andares feitos de materiais frágeis como madeira e tijolos secos ao sol. O térreo normalmente era ocupado por quitandas ou outras lojas. “As diferenças sociais em Roma não foram maiores que em outras sociedades. Mas havia políticas públicas que visavam os mais pobres. Milhares deles recebiam trigo a preços subsidiados e existia um ministério voltado ao abastecimento da população”, afirma o professor Funari.

Nos bairros populares do monte Aventino, lixo e dejetos, feitos em penicos, eram despejados na rua, da janela. Quem preferisse poderia usar uma latrina pública, onde as pessoas ficavam sentadas, com a túnica arriada, à vista de todos. No fim, a chuva carregava tudo para a cloaca maxima, sofisticado sistema de esgotos subterrâneos que usava a água que saía dos banhos e fontes públicas para carregar os detritos até o rio Tibre. No miserável bairro da Suburra, operários ou desocupados bebiam em tavernas um vinho intragável, quase um vinagre, dissolvido em água. Por segurança ou por pura pompa, abastados só passeavam por lá (e pelo resto da cidade) aboletados em liteiras e precedidos por um séquito de escravos. Como não havia polícia, eles também faziam as vezes de guarda pessoal.

Os prazeres da vida

Roma era uma cidade insalubre. Mas os romanos se esforçavam para manter a própria higiene. A prática dos banhos era amplamente difundida, e tanto ricos como pobres freqüentavam as termas. Nelas, havia piscinas de água fria, banheiras de água quente, salas com vapor e ambientes para prática de ginástica – homens e mulheres usavam espaços diferentes. Nos imensos complexos, relaxava-se, faziam-se negócios e discutiam-se política e filosofia. “Nada é mais doce que o gongo, sinalizando a abertura dos banhos”, dizia o senador e pensador Cícero no século 1 a.C.

A nobreza e a grande massa popular também se misturavam nas famosas corridas de bigas do Circo Máximo ou nas populares lutas de gladiadores, que se enfrentavam na arena (“areia”, em latim, por causa do sedimento que recobria o cenário). O principal palco dessas lutas, o Coliseu, foi concluído pelo imperador Tito no ano 80 e possuía uma organização de fazer inveja aos atuais estádios de futebol brasileiros: tinha um sistema de coberturas retráteis contra a chuva e o sol excessivo e os vomitoria, saídas que davam acesso direto aos assentos ou ao exterior e permitiam esvaziar o local em minutos, sem tumulto.

Os jogos eram patrocinados pelos imperadores ou por outros membros endinheirados da nobreza. A entrada era paga, mas os preços, módicos. “Os espetáculos podiam ter um viés político para angariar votos, mas eram muito mais que isso”, diz a historiadora Renata Senna Garraffoni, da Universidade Federal do Paraná e autora de Gladiadores na Roma Antiga. “Eram lugares de encontro entre as pessoas comuns e expressavam a identidade do povo romano, seus valores culturais, como a relação com os deuses, com a vida e a morte, suas idéias de virtude, de guerra, de combate.”

As brigas, porém, não eram tão sangrentas assim. Como os gladiadores eram profissionais valiosos, os derrotados eram poupados com freqüência da morte. “Muitos viveram vários anos e até se aposentaram, tornando-se instrutores de jovens gladiadores”, diz Renata. Diversos deles viravam celebridades, objetos de desejo das damas mais assanhadas da nobreza. Declarações de amor eram feitas a eles nas paredes romanas. Os muros, por sinal, recebiam outros tipos de inscrição: propaganda política, anúncios de comércio e simples provocações entre desafetos. Sutileza não era o forte romano. Um dos grafites, por exemplo, traz: “Marítimo pratica o cunilíngua por quatro asses [dinheiro da época], mas só aceita virgens: batamos, então, em outra porta”.

Em Roma, era comum homens trocarem beijo na boca como demonstração de amizade. O ócio era praticado pelos ricos durante a tarde inteira: eles só liam, escreviam, conversavam. Viver de renda era mais glamoroso que trabalhar. A propina era praticada em todas as instâncias e o enriquecimento de políticos, absolutamente normal (ainda que muitos o condenassem). Há quem critique Roma por seu imperialismo ou por manter uma economia sustentada pela mão-de-obra escrava. O que ninguém pode contestar é que a civilização é o berço das nações européias e diversos outros países colonizados por elas, inclusive o nosso. E que foi com Roma que aprendemos, bem ou mal, a ser como somos. •

site:http://historia.abril.com.br/cotidiano/roma-auge-436288.shtml

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